O PRECONCEITO “NATURALIZADO” NAS INSTITUÇÕES

É terrível e dolorosa a contradição entre as aspirações e os ideais de justiça e igualdade da nossa sociedade, e a verdade da realidade cotidiana. Os escombros de trezentos e cinqüenta anos de escravidão espalhados e abandonados pelos cantos do país e os cento e vinte e um anos que a república excluiu e inaugurou, respectivamente, produziram uma sociedade racialmente hierarquizada, na qual os negros do Brasil “de fora” não entram no Brasil de “dentro”.
A ideologia da inferioridade do negro, acompanhada de sua permanente desconstrução como pessoa humana, com a finalidade de produzir justificativas morais e legitimidade política para a instalação e manutenção do comércio do corpo e a escravidão, cristalizou e naturalizou o preconceito e discriminação nas estruturas do Estado e das instituições.

Entendo que este preconceito e racismo estão enraizados como um câncer em nossa sociedade de tal maneira que o negro já discrimina o próprio negro. Como ocorreu recentemente em Brasília em que um deputado federal de cor negra destratou e humilhou outro negro dizendo: ”Tinha que ser um negro”. Com essas palavras demonstrou o ranço de uma doença que somente o tempo poderá erradicar. Devemos entender que na essência somos iguais sem distinção, porém, nas diferenças devemos respeitar. Uma vez que não há respeito surge o conflito entre superioridade e inferioridade.
Essa ideologia provocou e impregnou o imaginário social e continua sendo alimentada e se alimentando livremente produzindo as mesmas crenças e práticas que definem na mente e no gesto o lugar do negro no edifício social.

Não existem as placas ostensivas e leais do “No Black” do apartheid sul-africano ou norte-americano nos elevadores da nossa república. Elas são invisíveis, operam silenciosas e mediante engenhos sofisticados. No nosso edifício social os elevadores não possuem placas, mas quando franqueados o negro só pode subir pelo de serviço.

Um simples olhar ao nosso redor é suficiente para demonstrar que aqueles que nos antecederam fizeram escolhas erradas. É claro, está faltando negro aí! E equivocadamente a idéia de justiça e liberdade quando dois cidadãos se encontram para sempre impedidos de cruzarem ao longo do caminho porque suas estradas são paralelas. Um país com esses atributos não poderá ser longevamente bom para ninguém. Devemos recusar a idéia de que este é o melhor país que podemos construir.

“Devemos nos rebelar contra a naturalização de um país separado e desigual. Precisamos construir um novo país. Proponho que comecemos pela educação.” Uma educação em que a diversidade étnica e estética seja um valor global na prática cotidiana, na formação, na ambientação, na distribuição da participação das oportunidades. Em que a comunicação como concessão esteja subordinada ao primado da pluralidade estética e da representação social. Uma educação em que os resultados da produção do conhecimento e o acesso aos bens culturais sejam indistintamente disponibilizados a todos. Definitivamente precisamos de uma educação que possibilite a construção de caminhos variados e que todos os caminhos façam com que as pessoas se descubram, se emocionem, troquem confidências, se toquem, se amem, cantem juntos e torçam juntos.

O amanhã se decide hoje. Precisamos decidir que futuro queremos para os nossos filhos e para os filhos dos nossos filhos. Quero dizer que poderemos construir o nosso futuro se confirmarmos o que soubemos e praticarmos desde sempre: que a liberdade educa e a educação liberta. Sem educação não há liberdade e sem liberdade não escolha.

Caetano Amado é jornalista e ex deputado estadual.

 
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